Circulação em Loja

Circulação em Loja

Introdução

Como caminhar no templo, considerando geralmente a forma retangular do mesmo? O obreiro ao ingressar no Templo fica de frente para Oriente (Leste), na parte Ocidental (Oeste), tendo ao seu lado esquerdo a Coluna Setentrional (Norte) e à direita, a Coluna do Meio-Dia (Sul).

Qual caminho deverá seguir? Pela esquerda ou pela direita, seguindo a Coluna Setentrião (Norte) ou pela Coluna do Meio-Dia (Sul)? Isso depende do ritual eleito pela Potência ou Obediência que determina o cumprimento às lojas subordinadas.

Nesse trabalho, destacaremos dois sistemas de circulação no templo: a destrocêntrica e a sinistrocêntrica. Serão abordados os detalhes da caminhada em cada sistema de circulação e as razões para a adoção de cada modelo.

Ao final, identificamos o modelo adotado pelo GOBSP em seu Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), conforme ritualística definida pela referida Obediência Maçônica.

  1. Aspectos Gerais

A expressão “circum” significa “em volta de”, “em redor de” e “ambulação”, de origem latina, tem o sentido de “andar, passear, caminhar”. Juntando as duas palavras, temos que é andar, caminhar, em redor de algo que, no caso, é circular no Templo, tendo um ponto de referência que é o Painel do Grau. Caminha-se em redor desse referencial mencionado.

No entanto, não percamos tempo com nomenclaturas. As palavras “circum-ambulação” e “circunvolução” são apenas termos sofisticados para o que conhecemos por “circulação”. A intenção dos autores deveria ser de facilitar a compreensão, e não de complicar. Afinal de contas, quando um policial quer que um cidadão se movimente, ele diz “circulando, circulando!” e não “circum-ambulando, circum-ambulando!” ou “circunvoluindo, circunvoluindo!”

Assim entende-se por circulação no templo, a conduta de caminhar corretamente no interior do Templo em conformidade com a ritualística adotada pela Hierarquia Macônica.

  1. Tipos De Circulação No Templo

A Maçonaria possui modelos de circulação que variam conforme o adotado pela hierarquia maçônica. Há a circulação em sentido anti-horário, chamada de sinistrocêntrica (rara); a circulação em sentido horário no Ocidente e anti-horário no Oriente (mais rara ainda); e a circulação apenas em sentido horário, conhecida como destrocêntrica, adotada no REAA (muito popular no Brasil).

Assim, dois são os sistemas que disciplinam a circulação no interior da Oficina: destrocêntrico ou solar e sinistrocêntrico, também conhecido por polar.

O primeiro sistema, o destrocêntrico (dexter, latim=direita), consiste em caminhar pela direita voltada diretamente para o lado interno do ponto de referência que é o Painel do Grau, isto é, a direita fica do lado interior de um círculo imaginário, enquanto a esquerda fica do lado exterior desse.

A caminhada, portanto, é no sentido dos ponteiros do relógio ou sentido horário. Ao ingressar no Templo, o maçom anda em direção ao Oriente (Leste), estando “entre colunas”, pela esquerda, passando pelo Setentrião (Norte), tendo a sua direita direcionada ao centro desse círculo imaginário, cujo ponto central é o Painel do Grau.

Retornando do Oriente (Leste) para o Ocidente (Oeste), fará o inverso. Terá sua direita voltada para o centro desse círculo imaginado e sua esquerda próxima ou voltada para a coluna do Meio-Dia (Sul).

Em qualquer parte que se encontre o maçom no Templo, sempre fará o percurso tomando como base a direção dos ponteiros do relógio.

O outro sistema, o sinistrocêntrico (latim, sinister=esquerda), é o inverso do destrocêntrico.

O obreiro, na mesma posição “entre colunas”, de frente para o Oriente (Leste), para reforçar o entendimento, começa seu giro pela direita que corresponde sua esquerda direcionada para o ponto central desse círculo que se imagina. Sua direita volta-se para a coluna do Meio-Dia (Sul), observadas as mesmas regras do destrocêntrico, como o sinistrocêntrico.

Assim sendo, a Maçonaria possui modelos de circulação, cuja escolha de um deles é resultante de simples discricionariedade conferida às Obediências. É claro que cada tipo de circulação maçônica tem seus motivos de existir e suas explicações, sendo que no presente trabalho destacaremos as principais justificativas para eleição de determinado sistema.

Se a escolha recair sobre o sistema sinistrocêntrico, o giro ritualistico se dará em sentido anti-horário, conforme comentado, acompanhando os movimentos de rotação e translação da Terra. O movimento de rotação da Terra é o giro que o planeta realiza ao redor de si mesmo, ou seja, ao redor do seu próprio eixo e tem duração aproximada de 24 horas. Já o movimento de translação é aquele que a Terra realiza ao redor do Sol junto com os outros planetas. Em seu movimento de translação, a Terra percorre um caminho – ou órbita – que tem a forma de uma elipse.

Esses movimentos ocorrem no sentido anti-horário, de oeste para leste, em sentido contrário ao andamento dos ponteiros do relógio. Sendo o templo uma representação do universo, essa movimentação astronômica poderia justificar a escolha desse modelo de circulação hierarquia maçônica.

Por outro lado, eleito o Sistema Destrocêntrico pelas Autoridades da Obediência, o caminho será pela esquerda acompanhando o sentido dos ponteiros do relógio ou sentido horário conforme comentado, sendo o mais comum. É esse o giro ritualístico adotado pelo Grande Oriente do Brasil em seus diversos ritos, como será detalhado.

Numa primeira análise, sendo o Templo, uma representação do universo, o sentido de giro deveria ser o Sinistrocêntrico, no sentido anti-horário como já comentado, sendo lógico que nossos giros ritualísticos acompanhassem o sentido astronômico. Todavia, isso não ocorre, uma vez que a convenção vem do passado e se baseia na tradição.

A tradição convencionou, com base em antigos rituais, o giro em sentido horário em volta de um altar, não sendo, portanto, coisa recente.

Enquanto os egípcios valorizaram o lado esquerdo como o lado espiritual, os gregos antigos tinham o lado esquerdo como o “desfavorável” e o direito como o “favorável”, visto que, em regra, o braço direito favorece mais o dono do que o esquerdo. Daí surgiu a referência popular de que “fulano é meu braço direito”. Por esse entendimento, a circulação em torno dos altares gregos era sempre realizada de forma que o lado direito ficasse próximo ao altar.

Já os romanos, adotando o mesmo procedimento, vieram a chamar essa circulação de “dextrovorsum” e relacioná-la ao aparente movimento que o Sol faz diariamente em torno da Terra. Esse aparente movimento do Sol se deve ao fato da Terra girar no sentido anti-horário em torno de seu eixo (Rotação), o que gera a percepção para seus habitantes de que é o Sol que está se movendo no sentido horário.

Vários outros povos em diferentes épocas, tendo sempre o aparente movimento do Sol como referência, também adotavam a circulação em sentido horário, tendo altares, fogueiras, totens ou sacrifícios como eixo.

Devemos nos ater que até a Idade Média, a Terra era tida como o centro do sistema solar (uma espécie de Sistema Geocêntrico) e que eram o sol e os demais astros que giravam em torno da terra, que como centro de tudo, ou ponto central, ficava parada. Daí então, o aparente movimento do sol em torno do nosso planeta orientou o sentido do giro nos povos antigos.

Diante desse sistema geocêntrico vigente, as rotações às avessas (sentido sinistrocêntrico) foram relacionadas aos rituais de magia negra. As bruxas dançavam neste sentido ao redor da figura do diabo. Daí então se firmou a codificação do Giro do Bem e do Giro do Mal.

Para fins de conhecimento, somente com os estudos de Nicolau Copérnico (1473 – 1543), considerado o fundador da astronomia moderna, foi desenvolvida sua teoria heliocêntrica, afirmando que a Terra e os demais planetas se moviam ao redor de um ponto vizinho ao Sol, sendo, este, o verdadeiro centro do Sistema Solar. A alternância entre dias e noites é uma consequência do movimento que a Terra realiza sobre seu próprio eixo, denominado movimento de rotação.

Rapidamente, a Igreja Católica se opôs à teoria heliocêntrica, e Copérnico só autorizou a divulgação de seus dados matemáticos que comprovavam a teoria após sua morte, pois temia ser condenado por heresia pela Igreja Católica.

Posteriormente, Galileu Galilei, durante o século XVII, reforçou a teoria heliocêntrica e, como consequência de seu “atrevimento”, Galileu foi julgado pelo tribunal da Inquisição, tendo como opção negar sua teoria ou ser queimado na fogueira da Inquisição. Sem muitas alternativas, sua teoria foi negada. A Igreja Católica só aceitou esse modelo de Sistema Solar em 1922.

Portanto, vários motivos e explicações podem justificar a escolha do modelo de circulação no templo pela hierarquia maçônica e, nesse caso, todas as unidades maçônicas filiadas à obediência ficam obrigadas ao cumprimento, vedada a faculdade de escolha por cada loja.

  1. Circulação No Templo – GOB – REAA

Sendo a circulação destrocêntrica uma prática de certa forma universal, e, interpretando o Templo Maçônico como um microcosmo da Terra, é fácil compreender sua adoção no REAA e em vários outros ritos. Destacaremos a circulação no OCIDENTE e no ORIENTE adotado pelo REAA.

3.1 Circulação no Ocidente

Quando a circulação ocorre no Ocidente, é feita no sentido destrocêntrico, da esquerda para a direita, ou seja, no sentido horário, tendo como referência o Painel do Grau que está localizado ao centro do Ocidente. O giro ritualístico nesse sentido representa o caminho aparente do Sol em redor da Terra.

A circulação em Loja aberta é feita com passos naturais e sem o Sinal de Ordem. Trata- se de uma prática que impõe ordem e disciplina aos trabalhos.

Qualquer Obreiro ao sair do Templo durante as Sessões, deve fazê-lo andando normalmente e não de costas como muitos fazem, alegando um pretendido respeito ao Delta.

3.2 Circulação no Oriente

No Oriente não existe padronização na circulação, podendo o irmão circulante se deslocar livremente, sem necessidade de fazer a saudação ao Venerável.

Nos templos que possuem degraus de acesso ao Oriente (que não são obrigatórios), os Obreiros devem subi-lo andando normalmente e não com passos em esquadria.

O Obreiro que subir ao Oriente, deve fazê-lo pela região Nordeste (à esquerda de quem entra), saindo, depois, pelo Sudeste (à esquerda de quem sai).

Conclusâo

O modelo de circulação no templo (destrocêntrico ou sinistrocêntrico) pode ser um ou outro. O necessário é a obrigatoriedade da circulação pelo lado escolhido pela Hierarquia Maçônica, esquerda ou direita. Mas, uma vez determinado pela Potência, as oficinas filiadas ficam vinculadas ao cumprimento do lado indicado.

O que é proibido é a faculdade de escolha de cada loja. Vige o princípio da Unidade Administrativa da Sublime Ordem que impera como em outros casos similares.

É preciso comando ditando regras visando continuidade da Instituição sem o qual estaria fadada ao declínio e a anarquia imperaria. Faz-se necessário a ordem para que a disciplina e progresso sejam conservados interna-corporis.

O modelo adotado pelo GOBSP é a circulação destrocêntrica e deve ser observado conforme determina a ritualística do REAA.

Bibliografia :

Ritual AM REAA 2009

Site Formadores de opiniões

Site Comunidade Maçônica

Ir∴Alexandre Batista da Silva – M∴ I∴

Cavaleiros de São João Batista 4359

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